Sobrevivente de ataque a colégio em Suzano larga estudos por depressão
Foto: Arquivo pessoal

Sobrevivente de ataque a colégio em Suzano larga estudos por depressão

José Vítor, que cursava o segundo ano do Ensino Médio largou os estudos e parou com o basquete. A família foi indenizada e mudou-se da casa em que vivia para um apartamento devido à proximidade com a família dos assassinos.

Um dos 11 feridos, José Vitor levou um golpe de machado e correu sozinho a hospital; massacre foi causado por ex-alunos e deixou ainda sete mortos no local

No dia 13 de março de 2019, a aposentada Sandra Regina Ramos, 50 anos, ouvia de sua casa o barulho de helicópteros quando o telefone tocou. Era do hospital Santa Maria, pedindo que fosse até lá. Seu filho, José Vítor, estava internado. Ao tirar o carro da garagem, notou os vizinhos do lado de fora, mas não achou nada demais. Dirigiu por três quadras. “Quando eu cheguei na última quadra, vi o tumulto.”

O tumulto a que se refere era em frente à Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, no interior de São Paulo. O colégio, naquele dia, fora alvo de um atentado cometido por dois jovens: Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25, ex-alunos dali. A dupla matou sete pessoas – cinco estudantes e dois funcionários da escola – e deixou onze feridos.

Monteiro, na sequência, atirou em Castro e, depois, se matou. Eles já haviam matado, antes de invadir o colégio, um comerciante local. Um segundo adolescente de 17 anos foi levado à Fundação Casa, suspeito de ser um dos autores do crime.

José Vítor, que cursava o segundo ano do Ensino Médio, estava na mesa da merenda. Ao ouvir o tiro, pensou que era “bombinha”. Ao virar para trás, viu Monteiro matar as pessoas. Ao tentar fugir, já perto da entrada da escola, deparou-se com Castro. Foi acertado no ombro direito com uma machadinha. Ainda assim, conseguiu escapar pelo portão e chegar sozinho até o hospital, a poucos metros de distância. Não contou com a ajuda de ninguém.

Na TV do hospital, Sandra o viu ser anunciado como um dos mortos. Mas um sobrinho que a acompanhava decidiu buscar mais informações. E descobriu que o primo estava vivo. José Vitor nasceu em 6 de março de 2011 e renasceu em 13 de março de 2019. “O nascimento (dele) foi bom, esse segundo (nascimento) foi melhor ainda.”

O rapaz passou quatro dias internado. Ao receber alta, foi para casa. O período da convalescença, porém, não foi tranquilo como recomendam os médicos. “Nós ficamos muito expostos na mídia. As pessoas começaram a inventar coisas sobre ele. Falaram que ele estava fazendo tráfico de droga na escola.” Houve também, ela afirma, perseguições por parte de líderes políticos locais, em razão de suas entrevistas.

A família foi indenizada em R$ 100 mil. Mudou-se da casa em que vivia para um apartamento devido à proximidade com a família dos assassinos – eles viviam na mesma quadra que Sandra e José Vitor. Recuperado, José Vítor conserva uma cicatriz no ombro e parou com o basquete, esporte pelo qual é apaixonado.

O garoto chegou a voltar à escola, mas interrompeu os estudos antes de terminar o ano. “No finalzinho, ele não quis mais. Ele ficou decepcionado, veio a depressão.” Sandra conta que o filho foi piorando emocionalmente e agora está recebendo apoio psicológico com terapia. José Vitor cogitou cursar Educação Física e já trabalhou como modelo e a atuar em uma minissérie na TV Record.

A mãe, por sua vez, está determinada a fazer com que ele termine os estudos. “Não é nem questão de ele querer ou não concluir os estudos. É uma obrigação. Não tem como falar que não vai. Não existe isso.”

O rapaz tentou tirar carteira de motorista, mas fora reprovado duas vezes no exame psicotécnico. “A psicóloga falou que ele está com trauma”, disse a mãe. “Fica abalado o sentimento da gente. Você acha que seu filho está num lugar seguro, de repente você ouve falar em outros países (sobre) esse (tipo) ocorrido, você nunca imaginaria que aconteceria perto de você.”

Apesar disso, Sandra conta ter se tornado menos protetora com o filho e mais consciente em viver o tempo presente. Evita deixar as coisas para o dia seguinte. “Amanhã a gente não sabe. O dia de amanhã pertence a Deus.”

Mas ela guarda raiva de um dos autores do atentado. “Tenho raiva desse terceiro menor que foi apreendido. Esse eu sinto raiva. Esses que morreram acabou, o fim deles foi o fim que tinha que ser.”

Com Informações: Época

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