Massacre em Suzano: ‘Se meu filho fosse branco, ele teria recebido ajuda’
Foto: Renan Omura/Ponte Jornalismo

Massacre em Suzano: ‘Se meu filho fosse branco, ele teria recebido ajuda’

Sandra Regina é mãe de José Vítor, 18 anos, estudante sobrevivente de um ataque em Suzano, e que foi sozinho ao hospital porque as pessoas se negaram a socorrê-lo, uma cena nítida de racismo, segundo sua mãe.

Um adolescente caminhou quase 400 metros com um machado fincado em seu ombro na cidade de Suzano, São Paulo. Negro, José Vítor Ramos Lemos pedia socorro nas ruas. Vítima do ataque feito por dois agressores brancos na escola estadual Raul Brasil no dia 13 de março, ele recebeu ajuda apenas quando chegou ao hospital. Uma cena nítida de racismo, conta sua mãe.

“As pessoas não entendiam o porquê um menino estava com um machado cravado no ombro e ficavam sem reação. E eu tenho certeza que se meu filho fosse branco ele teria recebido ajuda’, diz Sandra Regina Lemos “As pessoas viram que ele estava com um machado cravado e pensaram ‘O que ele fez pra ter se machucado?’, pensando que ele teve culpa da machadada, critica.

Sentada no sofá de casa ao lado do filho, a dona de casa reconhece as dificuldades que José Vítor enfrenta na vida por ser negro. O caso vivido em decorrência do ataque na escola em que ele estuda é apenas um exemplo. Sandra cita coisas mais simples na vida que impactam igualmente o jovem, não precisamos ter fincado um machado no ombro para o racismo dar as caras. “Por exemplo, se meu filho fizer uma tatuagem, ele vai ser muito mais mal visto do que um garoto branco. As pessoas vêem um garoto negro tatuado e logo pensam que é cadeeiro”, cita a mãe.

José Vítor prefere não classificar como preconceito o fato de ninguém ter prestado ajuda em um momento de desespero. O jovem imagina que o que aconteceu não foi na maldade “Eu pedi ajuda mas ninguém quis me ajudar. As pessoas ficaram olhando pra mim , ficaram sem reação. Na minha opinião, as pessoas não me ajudaram porque não sabiam o que fazer”, comenta.”Eles ficavam olhando assustados e não faziam nada. E eu sabia que tinha que ir ao hospital, então eu não pensei em voltar pra casa, fui sozinho”, relembra.

O estudante estava com a namorada no intervalo da escola Raul Brasil na hora do ataque. Ao ouvirem os primeiros disparos, viu Guilherme Taucci Monteiro, 17 anos, matar a inspetora Eliana Regina Oliveira Xavier, uma das vítimas. Para fugir, ele correu em direção aos fundos da escola com outros alunos. José Vítor tentou pular o muro, mas ao perceber que a namorada não iria conseguir, decidiu ficar.

” Na hora que eu vi ele recarregando a arma eu corri em direção a porta. Eu achei que tinha escapado, mas tinha outro assassino no saguão. Eu tentei correr, mas ele cravou o machado em mim”, relata, explicando que entendeu o jeito de agir dos assassinos – além de Guilherme, Luiz Henrique Castro, 25, também agiu.” Eu percebi que atirava nas pessoas que estavam sozinhas e que estavam paradas. Era mais fácil acertar”, afirma.

Sem escapatória, o adolescente recebeu a machadada de Luiz Henrique. ” Eu senti o machado entrando em mim. Ele tentou tirar, eu empurrei a mão dele e saí correndo com o machado pendurado”, lembra. A ação é elogiada pela mãe. “Além de guerreiro, meu filho foi um herói. Se ele não tivesse pegado o machado do assassino,  imagina quantas pessoas ele teria matado  com o machado nas mãos?” , questiona dona Sandra Regina.

Após sair da escola e não conseguir ajuda,  o jovem sobrevivente foi caminhando até o Hospital Santa Maria e foi medicado. Ele ficou internado durante quatro dias e depois de passar por um procedimento cirúrgico, ele recebeu alta no sábado (16/03) . José Vítor relata que quando chegou no local,  foi atendido rapidamente, mas só ficou tranquilo quando recebeu uma ligação da namorada.

“Ela me ligou e disse que estava tudo bem. Durante o ataque ela disse que ficou abaixada em um canto e conseguiu  e se salvou. Foi um alívio”, conta. Apesar de tudo que passou, ele pretende continuar estudando na escola Rau Brasil. “Eu quero voltar logo. é uma boa escola e eu não pretendo sair de lá”, conta.

Foto: Renan Omura/Ponte Jornalismo

Com Informações: Ponte Jornalismo 

 

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